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Todo mundo sabe disso: homens juntos, só falam besteira. Mas esse grupo se superou: o assunto era depilação e bunda peluda.

- Ah, doi pra cacete, mas eu prefiro depilar.

- Que nada, acostuma. A mulherada gosta é de pêlo lisinho, isso sim.

O mais exaltado, a favor do jeito urso de ser, baixou a bermuda, deixou a bunda peludíssima à mostra e decretou:

- Mulher gosta é de bunda de macho, rapaz!

Eis que a polícia vai passando nesse exato momento.

- Tá todo mundo preso por prostituição e atentado ao pudor.

Assustado, o urso da bunda peluda protestou:

- Prostituição não dá cadeia.

- Desacato e atentado ao pudor, dá.

Foram fichados e demorou um tempão para explicarem que focinho de porco e tomada não são a mesma coisa.

Coitadinho, o cachorrinho era velho, mas era dela. E ela adorava o coitado, apesar de velhinho e cansado… Mas aí a situação piorou: ele começou a enxergar mal, bater nas coisas. Não tinha outro jeito, aí era levar para o veterinário.

- É grave, doutor?

- Não é muito, não. É glaucoma, e o único tratamento é a cirurgia. Não garanto que ele realmente vá ficar bom, mas não tem outro jeito.

- Doutor, eu acho operação uma coisa tão perigosa… Não tem como ele usar óculos?

O veterinário respira fundo e reza o mantra: ela é cliente, ela é cliente, ela é…

- Não, minha senhora, não quem como eu receitar óculos para o cachorro. As orelhas dele não são adequadas para segurar óculos. E, mesmo que inventassem uma forma de fazer com que os óculos ficassem fixos no cachorro, me diga: como eu saberia se o grau que estou testando nele funciona ou não, se o cachorro não pode me dizer?

- Ah, eu não tinha pensado nisso…

Quem tem muitos livros sabe: pintar a casa é um inferno. Tem que encaixotar tudo, depois arrumar tudo de volta. E a caixa é pesada, e tem que lembrar, no meio da reforma, onde está aquele exemplar importantíssimo para algo que se quer escrever… Ainda assim, ela permitiu a reforma, de tanto que o marido insistiu.

Gastaram um absurdo, já que a tinta tinha que ser uma tinta mega ultra power high supersônica antialérgica. Ainda assim, enfrentaram o desafio.

Três dias depois, a filha resolve redecorar o quarto do casal com vários carimbos da Hello Kitty. Enlouquecida, ela olha para o marido, aquele culpado pelo gasto à toa e sentencia:

- Resolve você, eu não quero nem pensar nisso, senão não vai prestar.

Ele olha para a filha, quase chorando:

- Filha, por que você fez isso? O nosso quarto está parecendo a Vila da Floresta.

- Pois é, papai, é um presente para vocês. Assim vocês dormem em um quarto de sonhos. Daquele jeito estava muito feio. Ficou lindo. Olha, é rosa. E a Hello Kitty está rindo.

- Eu me arrependi de ter comprado essa camiseta. Ela até inibe,mesmo, a transparência. Só que até demais, fica horrível, olha só como fica estranho.

- Mas não dá para notar, está debaixo da roupa. Não dá pra ver nada.

- Dá, sim.

Levantou a blusa.

- Olha.

- É, agora dá pra ver. É feinha, mas por dentro da blusa, ninguém vai notar. Fica tudo escuro. Quem levantaria a tua blusa?

- Mas eu sei que estou usando uma roupa feia, mesmo que escondida. Eu me recuso.

- Mas ninguém está vendo.

- É, não está mesmo. Mas se eu sofrer um acidente, precisar ir para o hospital, inconsciente, vão querer tirar a minha roupa para botar aquela bata horrível e vão ver a minha roupa ridícula.

- Eu estou imaginando um esquadrão da moda nos hospitais fazendo pouco dos pacientes mal vestidos, inclusive das roupas de baixo. E eu que pensava que nenhuma maluca no mundo pensaria nisso.

- Você não entende as mulheres.

- Nem as mulheres entendem você.

Ela sofria de dois males incompatíveis: enxaqueca e alergia a analgésicos. Portanto, em dias de crise, lá ia ela para o pronto socorro, tomar uma medicação fortíssima, ministrada a pacientes com dor extrema.

- Como é muito forte, vou ter que receitar, também, plasil, para evitar que você tenha enjôo.

Ela nem entendeu, nem respondeu, nem disse nada. Apenas deitou e deixou-se ser medicada. Dor, dor, dor e, de repente, uma suave melhora. Angústia.

- Cadê a nossa filha?

- Pirou? Lembra que ela ficou com a sua mãe?

- Eu acho que a mamãe não queria ficar com ela. Liga pra lá, vê se tá tudo bem.

- Pronto, está tudo bem, sim. Tenta dormir um pouco.

- Liga de novo, acho que ela vai aprontar alguma. Acho que ela vai dar uma volta na mamãe e vai se machucar. E feio. Eu sei, é intuição de mãe. Eu acho que alguma coisa horrível vai acontecer. Será que ela vem parar aqui, também? Ai, me deixa aqui, vai lá. Toma conta dela. Aliás, pede pra alguém vir pra cá comigo, acho que essa medicação vai acabar me matando. Mas quando você for, cuidado, acho que pode acontecer um acidente feio com você também. Será que o papai tá bem? Tenho impressão que uma coisa horrível, horrível mesmo, vai acontecer. Essa luz não está muito forte? Será que eu vou ficar cega?

Cismado, ele chamou o médico. A mulher era um tanto neurótica, sim, mas jamais surtava sobre tudo junto, de uma vez só.

- O que deixou ela assim, doutor? Isso tem volta? Ela já era meio amalucada, agora o caldo entornou.

- Deixa eu ver o prontuário… Ih, isso acontece com poucas pessoas: é um tipo de reação que o plasil causa.

- E agora, o que eu faço com essa alucinada? Não dá para sedar?

- Melhor não. Vamos esperar o efeito do remédio passar, e observar enquanto isso.

 - É grave? Vai ficar pior?

- De forma alguma. A dosagem foi baixa. Amanhã ela vai acordar sem sintoma algum. Vamos observar.

- Se o senhor quiser observar esse circo de horrores, tudo bem. Eu vou é dormir.

- Vocês viram que a mega sena acumulou? Eu vou já jogar. Pode escrever aí: semana que vem vou comprar uma casa imensa, um carro igual ao do Romário e ainda vou viajar pela Europa.

- Tio, aproveita que você está sonhando e pede isso pro Papai Noel. Pode ser que ele atenda o seu pedido.

 

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