Ela sofria de dois males incompatíveis: enxaqueca e alergia a analgésicos. Portanto, em dias de crise, lá ia ela para o pronto socorro, tomar uma medicação fortíssima, ministrada a pacientes com dor extrema.

- Como é muito forte, vou ter que receitar, também, plasil, para evitar que você tenha enjôo.

Ela nem entendeu, nem respondeu, nem disse nada. Apenas deitou e deixou-se ser medicada. Dor, dor, dor e, de repente, uma suave melhora. Angústia.

- Cadê a nossa filha?

- Pirou? Lembra que ela ficou com a sua mãe?

- Eu acho que a mamãe não queria ficar com ela. Liga pra lá, vê se tá tudo bem.

- Pronto, está tudo bem, sim. Tenta dormir um pouco.

- Liga de novo, acho que ela vai aprontar alguma. Acho que ela vai dar uma volta na mamãe e vai se machucar. E feio. Eu sei, é intuição de mãe. Eu acho que alguma coisa horrível vai acontecer. Será que ela vem parar aqui, também? Ai, me deixa aqui, vai lá. Toma conta dela. Aliás, pede pra alguém vir pra cá comigo, acho que essa medicação vai acabar me matando. Mas quando você for, cuidado, acho que pode acontecer um acidente feio com você também. Será que o papai tá bem? Tenho impressão que uma coisa horrível, horrível mesmo, vai acontecer. Essa luz não está muito forte? Será que eu vou ficar cega?

Cismado, ele chamou o médico. A mulher era um tanto neurótica, sim, mas jamais surtava sobre tudo junto, de uma vez só.

- O que deixou ela assim, doutor? Isso tem volta? Ela já era meio amalucada, agora o caldo entornou.

- Deixa eu ver o prontuário… Ih, isso acontece com poucas pessoas: é um tipo de reação que o plasil causa.

- E agora, o que eu faço com essa alucinada? Não dá para sedar?

- Melhor não. Vamos esperar o efeito do remédio passar, e observar enquanto isso.

 - É grave? Vai ficar pior?

- De forma alguma. A dosagem foi baixa. Amanhã ela vai acordar sem sintoma algum. Vamos observar.

- Se o senhor quiser observar esse circo de horrores, tudo bem. Eu vou é dormir.