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Coitadinho, o cachorrinho era velho, mas era dela. E ela adorava o coitado, apesar de velhinho e cansado… Mas aí a situação piorou: ele começou a enxergar mal, bater nas coisas. Não tinha outro jeito, aí era levar para o veterinário.
- É grave, doutor?
- Não é muito, não. É glaucoma, e o único tratamento é a cirurgia. Não garanto que ele realmente vá ficar bom, mas não tem outro jeito.
- Doutor, eu acho operação uma coisa tão perigosa… Não tem como ele usar óculos?
O veterinário respira fundo e reza o mantra: ela é cliente, ela é cliente, ela é…
- Não, minha senhora, não quem como eu receitar óculos para o cachorro. As orelhas dele não são adequadas para segurar óculos. E, mesmo que inventassem uma forma de fazer com que os óculos ficassem fixos no cachorro, me diga: como eu saberia se o grau que estou testando nele funciona ou não, se o cachorro não pode me dizer?
- Ah, eu não tinha pensado nisso…
- Eu adoro animal de estimação.
- Eu também… eles são tão fofinhos. Eu tenho um cachorro, dois gatos, um furão e dois canários belgas. E você?
- Eu tenho um aquário… Com mais de 10 peixinhos, todos de água salgada.
- Aquário não é bicho, aquário é decoração.
- É nada, eu até converso com eles. Parece até que eles falam comigo, também…
- Falam nada, você sofre de esquizofrenia… Vou mandar te interditar.
Ela adorava animais. Tanto, tanto, tanto que tinha um papagaio, dois furões, um casal de canários belga, uma tartaruga, um aquário com alguns (muitos) peixinhos e, claro, o trivial: três gatos e dois cachorros. Para surpresa de todos, inclusive dela mesma, o problema maior era com os cachorros: dois machos de raças diferentes que definitivamente não se bicavam (com permissão do trocadilho aviário). Era um tal de põe um para o quintal para que o outro vá para a frente que era um estresse só, principalmente para os filhos adolescentes, que definitivamente não haviam pedido para nascer em um zoológico.
Certo dia (por que sempre existe certo dia?), a filha adolescente pagou para ver: deixou os dois cachorros bélicos em um só ambiente, para ver se eles se entendiam. Esqueceu da gracinha e foi ter com os amigos na balada. Tarde, muito tarde, madrugada mesmo, ela acorda com um barulho danado de cachorro latindo, grunhindo, gritando.
Meio tonta, de camisola, o cabelo com uma liberdade de ir e vir invejável para qualquer revolucionário, ela foi às pressas, pois entendeu rapidinho o que estava acontecendo. Meus bebês!!! Encontrou o maior já trucidando o menor, que apesar de valente e tentar lutar, estava todo ensanguentado. Puxou o cachorrinho da boca do maior, suspendeu bem alto para que não houvesse perigo para o injuriado. O sangue do cachorrinho escorrendo por sua camisola, e até por umas mechas de cabelo não eram motivo de preocupação para ela. E agora, será que ele vai ficar bem? Coitadinho… Preciso ligar para o veterinário… Ainda bem que ele atende 24h…
Pronto. Foram todos os pensamentos felizes e aliviados que ela conseguiu ter. Imediatamente entrou em choque: batera a porta e, com isso, ficara trancada por fora. Desespero total. Lascou-se! O que eu vou fazer de camisola, desgrenhada, ensanguentada, com um cachorro moribundo nas mãos?
Já estava quase apelando para o grito, para o choro, quando a vizinha, que era meio notívaga e insone, foi ver o que estava acontecendo. Primeiro, o impacto: o que uma louca ensanguentada fazia com um cachorro nas mãos àquela hora? Antes mesmo que ela perguntasse alguma coisa, a dona dos cachorros foi se explicando, sem nem mesmo conseguir pedir ajuda.
- O que eu posso fazer? Quer entrar aqui em casa?
- Não, liga para o meu filho, ele tem um utilitário e pode nos levar no veterinário.
O filho, claro, prontamente chegou em casa, colocou a mãe e o cachorro na carroceria do carro e levou todos ao veterinário. Até hoje o doutor se pergunta por que aquela mulher não trocou de roupa antes de sair por aí socorrendo bicho que nem corria risco de morte.
