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Em  Porto Alegre, lugar em que o sotaque é tão diferente do amazonense que dá até nó na cabeça:

- Estou morrendo de fome.

- Olha, ali tem uma padaria, vamos ver o que dá para comer.

Ao chegarem, viram uma vitrine cheia de pastel, de formatos diferentes.

- De que é esse?

- Frango.

- E esse aqui?

- Decoração.

- Poxa, eu gostei mais desse. Não tem um que não seja decoração, que seja de verdade?

A atendente, querendo tacar o pastel na cabeça do ignorante, falou pausadamente:

- É de-co-ra-ção-de-ga-li-nha!

Coitadinho, o cachorrinho era velho, mas era dela. E ela adorava o coitado, apesar de velhinho e cansado… Mas aí a situação piorou: ele começou a enxergar mal, bater nas coisas. Não tinha outro jeito, aí era levar para o veterinário.

- É grave, doutor?

- Não é muito, não. É glaucoma, e o único tratamento é a cirurgia. Não garanto que ele realmente vá ficar bom, mas não tem outro jeito.

- Doutor, eu acho operação uma coisa tão perigosa… Não tem como ele usar óculos?

O veterinário respira fundo e reza o mantra: ela é cliente, ela é cliente, ela é…

- Não, minha senhora, não quem como eu receitar óculos para o cachorro. As orelhas dele não são adequadas para segurar óculos. E, mesmo que inventassem uma forma de fazer com que os óculos ficassem fixos no cachorro, me diga: como eu saberia se o grau que estou testando nele funciona ou não, se o cachorro não pode me dizer?

- Ah, eu não tinha pensado nisso…

Ela sofria de dois males incompatíveis: enxaqueca e alergia a analgésicos. Portanto, em dias de crise, lá ia ela para o pronto socorro, tomar uma medicação fortíssima, ministrada a pacientes com dor extrema.

- Como é muito forte, vou ter que receitar, também, plasil, para evitar que você tenha enjôo.

Ela nem entendeu, nem respondeu, nem disse nada. Apenas deitou e deixou-se ser medicada. Dor, dor, dor e, de repente, uma suave melhora. Angústia.

- Cadê a nossa filha?

- Pirou? Lembra que ela ficou com a sua mãe?

- Eu acho que a mamãe não queria ficar com ela. Liga pra lá, vê se tá tudo bem.

- Pronto, está tudo bem, sim. Tenta dormir um pouco.

- Liga de novo, acho que ela vai aprontar alguma. Acho que ela vai dar uma volta na mamãe e vai se machucar. E feio. Eu sei, é intuição de mãe. Eu acho que alguma coisa horrível vai acontecer. Será que ela vem parar aqui, também? Ai, me deixa aqui, vai lá. Toma conta dela. Aliás, pede pra alguém vir pra cá comigo, acho que essa medicação vai acabar me matando. Mas quando você for, cuidado, acho que pode acontecer um acidente feio com você também. Será que o papai tá bem? Tenho impressão que uma coisa horrível, horrível mesmo, vai acontecer. Essa luz não está muito forte? Será que eu vou ficar cega?

Cismado, ele chamou o médico. A mulher era um tanto neurótica, sim, mas jamais surtava sobre tudo junto, de uma vez só.

- O que deixou ela assim, doutor? Isso tem volta? Ela já era meio amalucada, agora o caldo entornou.

- Deixa eu ver o prontuário… Ih, isso acontece com poucas pessoas: é um tipo de reação que o plasil causa.

- E agora, o que eu faço com essa alucinada? Não dá para sedar?

- Melhor não. Vamos esperar o efeito do remédio passar, e observar enquanto isso.

 - É grave? Vai ficar pior?

- De forma alguma. A dosagem foi baixa. Amanhã ela vai acordar sem sintoma algum. Vamos observar.

- Se o senhor quiser observar esse circo de horrores, tudo bem. Eu vou é dormir.

Livraria lotada, fila imensa e, mesmo assim, ele insistiu consigo mesmo que precisava comprar aqueles livros, era questão de vida ou morte, mesmo. Odeio fila, odeio. Mesmo assim, heroicamente, ele passou minutos intermináveis, de relógio grande, para, finalmente, chegar a sua vez.

Ao que ele vai chegando ao caixa, uma mulher passa à sua frente e estende a mão ao atendente. Com um papel na mão.

Ah, não, isso é muita falta de urbanidade. Como uma pessoa fura a fila assim, na maior cara de pau? Não vou deixar, não…

- Com licença, senhora. Dirija-se à fila, como todo mundo. Agora é a minha vez.

- A sua vez de ser besta, isso sim. Não está vendo que eu estou entregando um documento, que não vou comprar nada? Aliás, não está vendo que a caixa que chamou você foi a próxima, e não essa? Eu, hein, aqui só dá doido…

Os donos e as donas de casa já sabem: quarta-feira, em Manaus, é dia de promoção nos supermercados: frutas, verduras e legumes a um preço não tão assustador como no resto da semana. Ele, então, não perde uma. Costuma até fazer excursão para ver se consegue fazer uma economia a mais.

E não é que andando com o carrinho cheio de produtos frescos ele dá de cara com limão siciliano? Para Manaus, isso tá de graça… Três Reais o quilo, vou levar bastante.

E começou a fazer planos: suco, mousse, bolo… Era um verdadeiro apaixonado pela fruta.

Chegou ao caixa, começou a despejar suas compras. A atendente, muito simpática, quis ajudar:

- Senhor, a pêra não está em promoção, e o senhor está levando muito. Não quer deixar para a semana que vem?

- Mas eu não comprei pêra.

- Senhor, então o que é isso?

- Limão siciliano.

- Nunca ouvi falar que pêra tinha esse nome também.

- Mas não é mesmo, é limão. Siciliano. Dá um suco ótimo.

- Suco de pêra é bom pra quê?

Foi aí que ele perdeu a paciência.

- Minha filha, eu sou velho, eu sei. Mas não estou com minhas faculdades mentais prejudicadas. Isso é limão siciliano. Pêra é outra coisa. E o preço é muito maior…

- Senhor, limão é uma coisinha verde, redonda, pequena, assim, ó…

- E isso tem formato de pêra para você?

- Não a tradicional. Mas o senhor já viu que tem uma pêra japonesa que é vermelha? Essa deve ser uma pêra de algum outro lugar. Deve ser chinesa.

- Chama o gerente, não vou mais discutir com você.

O gerente vem.

- Pois não, em que posso ajudar?

- O que é isso?

- Eu não sei exatamente,senhor, mas posso me informar.

- Isso é um limão siciliano, e não uma pêra, como ela insiste em dizer.

- Ah, é? Só um minuto, vou checar.

Leva o limão até a área de hortifruti e informa à atendente:

- É limão siciliano, mesmo. E não é que é verdade? Nunca tinha ouvido falar. Tá três Reais o quilo. Bate aí.

- Mas qual é o código?

- Sei lá.

- Não tá registrado, não.

Ele coçou a cabeça, pensou em desistir, mas resolveu que era uma questão de honra.

- Olha aqui, eu só não saio correndo com esse limão daqui porque vou levar uma queda e o prejuízo vai ser maior. Se virem. Arrumem um código. Eu quero o meu limão. E só saio daqui com ele.

Viraram o supermercado, conversaram, ligaram para outras lojas do grupo, conversaram com um dos sócios e finalmente, depois de meia hora, chega a solução. Da senhora que estava limpando o chão.

- Procura alguma coisa que custe três Reais o quilo e registra. Vamos dispensar o freguês, né…

Sem graça, a comitiva de gerentes e funcionários mobilizados concordam.

Ele vai pra casa, exibe o seu troféu e conta a história. Mal acaba de contar, chega a nora, olha para aquela fruta estranha e pergunta:

- O que é isso?

- Eu quero um bobó de camarão e um camarão grelhado com arroz com brócolis e batata sauté.

- Pois não, são 13,80.

- Só?

- É, a senhora não pediu um camarão à baiana?

- Não, meu bem, preste atenção. É um bobó de camarão e um camarão grelhado com arroz com brócolis e batata sauté.

- A senhora quer substituir o camarão à baiana pelo bobó?

- Não. Tem um papel para eu desenhar? Eu quero dois pratos: um bobó de camarão e um camarão grelhado com arroz com brócolis e batata sauté.

- Ah… São dois pratos. Um bobó de camarão e um camarão grelhado com brócolis e batata frita.

- Arroz com brócolis e batata Sauté.

- Não, só pode ser uma batata. A senhora quer que eu substitua a frita ou a sauté?

- Não quero que você substitua nada, porque eu sempre pedi batata sauté. Você que inventou batata frita. Eu quero o camarão grelhado com arroz com brócolis e batata sauté!

- E eu cancelo o bobó?

- Cancela o bobó, o camarão grelhado e a loja. Cancela, vou comer um hambúrguer.

- Nós não servimos hambúrguer.

Palavrão impronunciável.

- Boa noite, senhor, gostaria de pedir?
- Sim, uma pizza brotinho. Margarita, por favor.
- E para beber?
- Nada, só a pizza mesmo.
- Pois não, senhor. Se decidir beber algo, é só chamar.
Ele abre um livro e começa a ler, enquanto espera sua pizza ficar pronta. Passado uns 5 minutos, outro garçom para na mesa:
- A sua bebida ainda não veio, senhor?
- Eu não pedi bebida, obrigado.
- Nem uma água?
- Nem uma água, obrigado. Posso ler meu livro, por favor?
Nem dois minutos completaram até que o gerente do estabelecimento surge, com um ar de quem acabara de solucionar um grande mistério.
- O seu pedido é para viagem, certo?
- Não eu vou comer aqui, mesmo. Algum problema?
- É que o senhor não pediu nada para beber. Gostaria de fazer o pedido agora?
- O que é isso?
- Como, senhor?
- O que vocês estão querendo? Me enlouquecer, me envenenar ou querem que eu e seja um ser barrigudo, porque encheu o bucho de bebida enquanto comia?
- Claro que não senhor, é que todo mundo que vem aqui, pede alguma bebida para acompanhar a pizza.
- E eu tenho cara de todo mundo? E por acaso a pizza de vocês é tão ruim que precisa de Coca-Cola para ser empurrada goela abaixo. Então deixa eu ver… Eu pedi uma brotinho. Pelos meus cálculos, manda descer uma Coca de 1 litro e meio, que eu acho que dá para fazer a refeição.
- Senhor, não exagere. Se o senhor quiser, eu posso trazer uma lata de Coca-Cola, sem problema. Até porque o senhor não conseguiria tomar uma de 1 litro e meio.
- Ah, essa é demais. Quer saber? Cancela o pedido, eu vou ali adiante tomar uma sopa.
- Ah, mas sopa não precisa de Coca para acompanhar.
Palavrão impronunciável.

- Pois não, senhora.
- Me dá um sanduíche de atum, um milkshake grande de ovomaltine…
- 500ml?
- Não, é o grande, mesmo. E uma batata frita grande e uma água pequena.
- A senhora só é pequena… Para onde vai isso tudo?
- Olha, mais da metade eu gasto explicando para as pessoas que eu sou comilona, mesmo, que fazer regime é uma ilusão e que por mais que eu faça a dieta dos 3As (água, ar e alface), eu nunca vou parecer uma supermodel. Então, o melhor é comer porcaria, mesmo. Mas normalmente não vale a pena, nem dá resultado. Mas que o esforço deve contribuir para consumir calorias, deve.
Cara não identificada. Misto de confusão, ódio, discordância e uma pulga atrás da orelha.

Em um inocente quiosque de sorvete da Kibon:

- Boa noite, me dá uma casquinha de chocolate, por favor.

- Ah, não pode!

- Como?

- O sorvete está congelado.

- E por acaso vocês só podem vender sorvete derretido, é?

- Não, senhora, acontece que ele congelou demais e vai dar trabalho para tirar duas bolas de sorvete…

- Ah, entendo… Se você quiser, eu mesma me sirvo, sou craque nisso.

- Não, senhora, não pode…

- E esse da máquina, quanto custa?

- Ah, o da máquina está mole demais, também não dá para vender.

- Ah… Eu iria comprar água, também, mas pelo jeito ela deve estar muito líquida e não vai dar para vender, né?

- Senhora, também não é assim.

- E o que vocês estão fazendo aqui? Pegando poeira, tal qual samambaia de plástico?

Virou as costas e saiu rapidinho, antes de ouvir a resposta da entediada e mal humorada vendedora.

 

Ou: o que aconteceu, de uma vez só, quando ela foi fazer as unhas

- A sua sobrancelha é bonita.

- Obrigada.

- Deixa a senhora com cara de má.

- Como?

- É, quando a senhora entrou aqui, deu a impressão de que a senhora era chatíssima. Mas a senhora é tão legal, até conversa…

 

- A senhora quer café ou água.

- Água e café, por favor.

- Aqui, a sua água, o café e o adoçante.

- Não, adoçante, não, açúcar, por favor.

- Mas mulheres da sua idade não podem mais usar açúcar, só adoçante.

- Como assim? Existe uma nova pesquisa que diz que o açúcar tem um efeito devastador sobre as balzaquianas?

- Balzaquianas? Não, senhora, é que na sua idade a mulher começa a engordar muito e fica feia. E os maridos vão ficando cada vez mais bonitos e acabam arrumando umas garotinhas bonitas. Aí as mulheres da sua idade chegam aqui para baixo, chorando, porque estão gordas e perderam os maridos.

- Minha filha, obrigada pela consultoria emocional e nutricional, mas eu vou ficar com o açúcar, mesmo.

- Mas senhora, pense bem…

- Ah, e você acha que vai me ajudar a pensar, é? Por favor, traga açúcar. E se tiver coca-cola melhor ainda. E morre de inveja: quando eu sair daqui vou tomar milkshake de ovomaltine e comer uma batata frita grande. E amanhã vou a um aniversário de criança e vou comer todos os cachorros quentes, as pizzas, os brigadeiros e as pipocas que eu puder. E na segunda à tarde, durante o lanche, vai rolar um x-salada. É por isso que eu sou contente e você é amarga e se preocupa com a vida dos outros. Acreditar que esse vidrinho transparente cheio de petróleo traz felicidade só pode ser brincadeira.

 

- A senhora quer escolher o esmalte?

- Não precisa, vou usar o jabuticaba.

- E nos pés?

- A mesma cor.

- Ah, não, a senhora não pode usar cor escura nos pés.

- Era só o que me faltava. Por quê? É regra do salão, é?

- Não, senhora, é que ninguém mais usa cor escura nos pés. Todo mundo sabe: tem que ser cor escura nas mãos e nos pés uma bem clarinha, tipo Renda.

- Hummm… E você acha que eu tenho cara de quem vai seguir essa regra maluca? Põe jabuticaba nos pés e pronto.

- Mas olha, faz MUITO tempo que eu não pinto o pé de ninguém de cor escura. Está fora de moda.

- Olha para mim. Eu tenho cara de vítima da moda? Eu quero jabuticaba. Ou vou ter que ir para outro lugar para ser atendida adequadamente?

- Não, senhora, o cliente sempre tem razão, mesmo quando está equivocado.

E o atendente sempre enche o saco, deu vontade de falar. Mas, para evitar uma chacina em suas cutículas, preferiu ficar calada. Mas emburrada. A regra da sobrancelha acabou valendo novamente.

 

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