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- Eu me arrependi de ter comprado essa camiseta. Ela até inibe,mesmo, a transparência. Só que até demais, fica horrível, olha só como fica estranho.

- Mas não dá para notar, está debaixo da roupa. Não dá pra ver nada.

- Dá, sim.

Levantou a blusa.

- Olha.

- É, agora dá pra ver. É feinha, mas por dentro da blusa, ninguém vai notar. Fica tudo escuro. Quem levantaria a tua blusa?

- Mas eu sei que estou usando uma roupa feia, mesmo que escondida. Eu me recuso.

- Mas ninguém está vendo.

- É, não está mesmo. Mas se eu sofrer um acidente, precisar ir para o hospital, inconsciente, vão querer tirar a minha roupa para botar aquela bata horrível e vão ver a minha roupa ridícula.

- Eu estou imaginando um esquadrão da moda nos hospitais fazendo pouco dos pacientes mal vestidos, inclusive das roupas de baixo. E eu que pensava que nenhuma maluca no mundo pensaria nisso.

- Você não entende as mulheres.

- Nem as mulheres entendem você.

Ela sofria de dois males incompatíveis: enxaqueca e alergia a analgésicos. Portanto, em dias de crise, lá ia ela para o pronto socorro, tomar uma medicação fortíssima, ministrada a pacientes com dor extrema.

- Como é muito forte, vou ter que receitar, também, plasil, para evitar que você tenha enjôo.

Ela nem entendeu, nem respondeu, nem disse nada. Apenas deitou e deixou-se ser medicada. Dor, dor, dor e, de repente, uma suave melhora. Angústia.

- Cadê a nossa filha?

- Pirou? Lembra que ela ficou com a sua mãe?

- Eu acho que a mamãe não queria ficar com ela. Liga pra lá, vê se tá tudo bem.

- Pronto, está tudo bem, sim. Tenta dormir um pouco.

- Liga de novo, acho que ela vai aprontar alguma. Acho que ela vai dar uma volta na mamãe e vai se machucar. E feio. Eu sei, é intuição de mãe. Eu acho que alguma coisa horrível vai acontecer. Será que ela vem parar aqui, também? Ai, me deixa aqui, vai lá. Toma conta dela. Aliás, pede pra alguém vir pra cá comigo, acho que essa medicação vai acabar me matando. Mas quando você for, cuidado, acho que pode acontecer um acidente feio com você também. Será que o papai tá bem? Tenho impressão que uma coisa horrível, horrível mesmo, vai acontecer. Essa luz não está muito forte? Será que eu vou ficar cega?

Cismado, ele chamou o médico. A mulher era um tanto neurótica, sim, mas jamais surtava sobre tudo junto, de uma vez só.

- O que deixou ela assim, doutor? Isso tem volta? Ela já era meio amalucada, agora o caldo entornou.

- Deixa eu ver o prontuário… Ih, isso acontece com poucas pessoas: é um tipo de reação que o plasil causa.

- E agora, o que eu faço com essa alucinada? Não dá para sedar?

- Melhor não. Vamos esperar o efeito do remédio passar, e observar enquanto isso.

 - É grave? Vai ficar pior?

- De forma alguma. A dosagem foi baixa. Amanhã ela vai acordar sem sintoma algum. Vamos observar.

- Se o senhor quiser observar esse circo de horrores, tudo bem. Eu vou é dormir.

Para quem não conhece, apesar de dizerem por aí que é um alimento, maxixe é um bicho. Além de gosto duvidoso, é extremamente traiçoeiro: ele é MUITO mais quente por dentro do que por fora, parece que a peste guarda em si a capacidade de agitar suas moléculas.

Preâmbulo feito, vamos à história.

Namoro sério. Muito sério, com intenções casadoiras. Por isso, ele fez questão de conhecer a família da amada, que morava no Nordeste. Foi recebido por uma família enorme. Todos curiosos, querendo conhecer o caboquinho que queria entrar para a família.

Quem já passou por isso, sabe: a pressão é enorme, o medo de errar maior ainda e sempre algo dá errado. Mas ele tinha resolvido que com ele não teria erro: não cometeria gafe nenhuma e faria, como sempre, com que todos o adorassem.

Não fosse o maxixe demoníaco da hora do jantar…

- E então, tá gostando da nossa cidade?

- Com certeza. É muito aconchegante. E até muito mais bonita que Manaus.

Sorriso convencido de todos, até da besta da namorada.

- Quer maxixada?

- Claro, por favor. Aqui tudo tá delicioso, com a maxixada não deve ser diferente…

E haja maxixe cozido no leite, ….

Para mostrar que tudo estava, mesmo, delicioso, garfou dois maxixes e levou à boca. Ao morder, os dois grudaram no céu da boca, quentes, causando uma dor insuportável.

Eu não posso fazer feio, eu não posso fazer feio… Enquanto isso, as lágrimas escorriam de três em três, que são as mais sofridas.

A sogra, percebendo o sofrimento do coitado, perguntou:

- O que foi, meu filho?

Pensa rápido, pensa rápido. Não saber que maxixe é a verdura do cão é atestado de burrice. Preciso sensibilizar.

- Lembrei-me de mamãe. Ela adora maxixe.

- Oh, meu Deus, e ainda por cima é família. Filha, você não poderia ter escolhido noivo melhor.

Promoção relâmpago em uma livraria:

- Senhoras e senhores, informamos que o livro Ou Casa ou Vaza está em promoção, por R$ 27,90.

Gargalhadas. Da cliente e do atendente. E aí a palhaçada começa, pela moça ao lado:

- Preciso comprar para umas duas ou três amigas.

- Eu já sou casada, mas por via das dúvidas, eu vou comprar um… Pode ser que ajude a manter o casamento. Moça, traz um exemplar, quero dar uma olhada.

A anunciante chega se desmanchando em risos:

- Quase que eu não consigo terminar o anúncio com a brincadeira de vocês.

Neste momento chega um casal de namorados, amigos da primeira engraçadinha, para comprar alguns cds. Ela pega o livro, entrega à namorada:

- Olha aqui, aproveita que está em promoção. Não é uma boa ideia?

- Amor, amor, eu acho que é uma boa idéia, mesmo. Vou levar. E se você não casar, vou mandar você vazar. Já são quase 4 anos de namoro, né? Ai, obrigada pela sugestão. Olha aqui, olha aqui, pode ser que você não valha a pena. Se cuida, mané.

O quarentão, solteiro convicto de carteirinha, olha para a amiga da onça, e, não podendo falar palavrão, fala rosnando:

- Eu não sei quem é mais inconveniente: a promoção, o livro ou você. Me dá essa porcaria, amor, deixa que eu pago.

-  Tá vendo amiga, ele vai pagar. Ainda tenho esperança, posso casar. Quem sabe esse ano…

- Pega o livro, não pago mais.

Ah, os sábios, que sabem a hora e a medida do falar…

Ele era um homem bom. Bom pai, bom marido, bom filho. Bom em quase tudo. Por isso, dava para suportar sua mania de organização, o corte de cabelo cafona, a mania de não combinar meia com sapato, o ronco capaz de acordar quarteirão, o paladar gastronômico bizarro, o aquário que ele não limpava nunca, a quantidade de cerveja ingerida nos fins de semanas, a mania de dirigir moto e o bom humor matinal insuportável.

Mas tinha uma coisa que causava irritação em todos, particularmente na esposa: sempre que possível, gostava de fazer compras em promoção. Se fosse móveis e eletrodomésticos, usados, mesmo, no máximo naquela condição indecente: no estado.

- No estado de petição de miséria, só pode ser, declarou uma vez sua esposa.

É claro que a irritação com esse perfil do marido foi crescendo ao longo dos anos, mas um dia foi decisivo, fatal, trágico.

Estavam almoçando no sítio com os amigos, e uma de suas amigas começou a fazer uma analogia, no mínimo, maluca:

- Para mim é batata: o homem que não valoriza a casa, não me valoriza. Faço questão que o meu marido compre do bom e do melhor para mim e, principalmente, para a nossa casa. Sempre temos o último lançamento em eletrodomésticos, eletroeletrônicos, os móveis de última tendência… Tenho certeza de que, dessa forma, meu marido mostra o quanto se importa comigo e com o nosso lar.

- Pois lá em casa a gente não dá muito valor a isso, não, não é meu bem? Compramos tudo de segunda mão. Se funciona, presta. Se presta, a gente pode usar. Essa semana mesmo vamos precisar comprar uma geladeira nova, a nossa está pedindo arrego. Vamos ver umas no estado…

A mulher, do alto de sua fúria de quase 30 anos de casamento, despressurizou toda a sua raiva e lançou um jato de ódio e ameaça para o marido.

- Quer saber? De bagulho lá em casa já basta eu. Pois eu quero uma frost-free, de alumínio, com gelo e água saindo da porta e todas essas frescuras. Aliás, ou é a sua avareza ou eu: de hoje até o Natal eu quero trocar tudo: eletroeletrônicos, móveis e eletrodomésticos. Senão eu vou trocar é você!

- Alguém quer um pedacinho de picanha? – adiantou-se um dos amigos, que era dado à turma-do-deixa-disso.

Ela não trocou o marido até hoje, mas dizem que ela anda pensando nisso novamente, agora por outro motivo: o rapaz tomou gosto e agora ninguém aguenta seu impulso consumista. Nem ela, que está só esperando a oportunidade de enquadrar o moço.

Não existe o homem ideal. Todos vão ter, sempre, um defeito, por menor que seja, um probleminha irritante que não vai passar nunca. Nem que seja joanete, chulé ou caspa. Esse, que eu amo tanto, é cheio de mania. Coitado, pelo menos gosta de mim.
Esse era o mantra diário que ela costumava recitar para si, para garantir seu próprio grau de lucidez, para aceitar o amado como ele era e, principalmente, para tolerar as coisinhas miúdas que formavam montanhas irritantes. De vez em quando, entretanto, perdia as estribeiras. Como naquele dia no restaurante.
Sabendo que ele sempre demorava para decidir até entre alface crespa ou americana, ela sempre se adiantava, servia o prato e ficava sentada à sua espera. Só que especificamente nesse dia, que ela mal tomara café, ele demorou mais que o esperado. E empacou ao escolher a bebida.
- Tem água com gás?
- Tem.
- Tá gelada?
- Tá.
- Mas dá para por gelo?
- Claro, senhor.
- E limão?
- Com certeza.
- Mas eu não queria aquele limão de rodela, não, eu queria espremido no copo, misturado com a bebida.
Antes que a atendente respondesse, a namorada bateu na mesa, enfurecida, e berrou:
- Pô, amor, pede logo soda, né?
Não era isso que ele queria, mas como ele acreditava que não existe a mulher ideal, e que todas vão ter, sempre, um defeito, por menor que seja, um probleminha irritante que não vai passar nunca, ele aceitava esse dela: o de ser uma mulher irritadiça e mandona. Afinal, não se pode ter tudo nessa vida.

Todo mundo tem um objeto que é de estimação, fundamental, indispensável. Às vezes, não servem para nada. Ou para tudo, como era o caso do canivete. Presente do pai, o que dá ao instrumento um ar mais solene ainda… Mas chegou o dia indefectível que o tal canivete sumiu. Ele olhou para a esposa, perplexo:

- Não estou achando o meu canivete!

- Você perdeu o seu canivete???

Procura,procura, procura enquanto fala com a esposa:

- Não estou achando o meu canivete!

- Você perdeu o seu canivete???

Ele, para marcar posição e para deixar claro que aquilo era só um aborrecimento temporário, repetia:

- Não estou achando o meu canivete!

Ela, marcando posição, querendo deixar claro o desleixo do marido, insiste:

-  Você perdeu o seu canivete???

- Não estou achando o meu canivete!

Vou mudar a tática, mas ele vai ter que assumir a culpa.

- Você não está achando o seu canivete?

Cansado, irritado, inconsolável por conta da perda não apenas de um objeto útil, mas de um elo afetivo importantíssimo e não querendo ter mais problema ainda, olha para esposa com um olhar quase de súplica, assumindo uma culpa que até então julgara inexistente:

- Eu perdi o meu canivete!!!

Até hoje eles não entenderam como um amigo, que presenciara a cena, morria de rir dessa relação de forças. A esposa insiste que tem doido para tudo. O marido complementa dizendo que esse, coitado, é caso perdido, mesmo.

Quanto ao canivete, ele apareceu, dias depois, e permanece até hoje trancado a sete chaves, por via das dúvidas.

Em viagem a trabalho, ela não tinha tempo para nada. A família já sabia: que só ligassem se fosse extremamente importante. Se quisessem falar sobre frivolidades, que aguardassem a sua ligação à noite.
Em meio a uma reunião, seu telefone toca. Era o marido.
Deve ser importante… Para ele ligar essa hora…
Pediu licença, saiu da sala e foi logo disparando:
- Fala rápido, estou no meio de um processo decisório importantíssimo.
- Saiu o resultado do concurso do TRE.
- E daí?
- Daí que você não foi aprovada.
- Ficou doido? Eu não fiz esse concurso. Aliás, é a última coisa que eu quero na minha vida.
- Pois é.
- Pois é o quê?
- Se você tivesse feito, tinha passado. E não estava aí, por duas semanas inteiras, discutindo o futuro do capitalismo.
- Preciso voltar para a reunião.
- Não vai fazer concurso, não?
- Do TRE? Mas o resultado já não saiu? Que conversa surreal é essa? Eu preciso voltar, é sério.
- Claro que não é do TRE. Qualquer um. Qualquer um que te deixe mais em casa.
- A gente precisa discutir isso agora? Estão me chamando.
- Tá bom… Por isso você não passou no TRE. Não tem tempo para nada. Beijo.
- Beijo, à noite eu ligo para você.

Ai, meu Deus, o papai não chega. Droga! Toda vez é isso. Pior, começou a chover e eu fiz escova e chapinha ontem! Droga, droga, droga… Ah… Lá vem ele. Putz, por que ele tem que parar tão longe? Vai estragar o meu cabelo.

Ela corre até o carro, entra como um furacão e já vai logo reclamando:

- Poxa, pai, além de atrasado o senhor ainda para longe? Não sabe que eu sou viciada em chapinha? Acontece que…

Ela emudeceu ao ver, ao seu lado, um rapaz, até que bonito, olhando estarrecido para aquela maluca que entrara repentinamente em seu carro. Maior que o seu constrangimento, entretanto, era a necessidade de manter o penteado.

- Moço, desculpa eu entrar em seu carro. Acontece que ele é MUITO  parecido com o carro do meu pai. Eu poderia até pedir desculpas e sair rapidinho, mas o meu cabelo iria ficar um horror. Não dá para notar, eu sei, mas eu uso escova e chapinha, sabe? Eu estou falando demais? É que essa situação está me deixando nervosa e eu estou com medo de estragar o meu cabelo. Será que você poderia me deixar mais perto da entrada, para que eu não pegue muita chuva? Eu iria agradecer pelo resto da vida.

- Tudo bem, eu levo. Mas você me dá o seu telefone? Assim você vai ter tempo de sobra para agradecer… Pelo resto da vida.

E ainda tem gente que duvida de contos de fada…

 

 

 

 

- Figueiredo é muito legal, tem tanta cachoeira linda… Só fico desgostoso na hora de comer. Os restaurantes oferecem comida simples demais a um preço estratosférico.

- Há, o que você não sabe é que eu descobri um restaurante italiano maravilhoso.

- Italiano? Aqui? Tá difícil.

- Não, é sério. Um italiano resolveu morar aqui e abriu uma cantina. Só tem que ter paciência com o caminho, que é íngreme e de chão batido, com muitos buracos, sem nenhum asfaltinho para remédio.

- E como você descobriu isso? Esse troço é bom, mesmo?

- Na semana passada, quando vim fazer aquele trabalho de campo, o professor levou a gente para jantar lá. E o lugar é bem aconchegante. A massa e o molho são caseiros, é muito bom, juro.

- Tá bom, vamos lá.

Depois de um pouco mais de meia hora de estrada, eles chegaram ao restaurante. Ao estacionar o carro, ele ficou petrificado.

- Não vou descer, não. Vamos voltar.

- O que foi?

- Olha aí, como está isso.

- Isso o quê? Você acha que é muito quente aqui?

- Não, olha aí esse pessoal.

- Ah, eles são normais.

- Normais, não. Eles estão sem camisa.

- E daí? Provavelmente eles estavam tomando banho de cachoeira.

-Ah, mas olha esses sovacos de fora.

- Não olha.

- Impossível, é igual cofrinho, não dá para desviar o olhar. Olha lá, eles parecem que estão criando uma colônia de fungos, que estão competindo com a Rapunzel. Sei lá, é muito nojento. Esses pêlos vão parar no meu prato.

- Deixa de besteira, vamos logo.

- Não vou, já falei. Eu tenho horror a sovaco de fora, não como perto de um sovaco, quanto mais perto de 12. Não vou e pronto, vamos voltar.

- Mas você vai perder a oportunidade de saborear uma comida maravilhosa.

- Nada pode ser maravilhoso perto de um monte de sovaco me olhando. Vamos voltar. Eu quero voltar. Se você quiser ficar, fica. Eu vou embora agora antes que esses sovacos me ataquem.

Foram-se embora, ela emburrada o resto da viagem. Até hoje ela conta essa história para todo mundo, com a vã esperança de que se enxergue algo de anormal em alguém aparentemente tão equilibrado. Na maioria das vezes, fracassa. Entretanto, vez ou outra aparece um lúcido para ver certo grau de neurose nessa fobia de sovacos nus.

 

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