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A mãe estudava enquanto a filha assistia ao noticiário (é, criança às vezes é uma coisa esquisita). De repente, a menina decreta:
- Mãe, eu quero ser gay.
- Tá bom, filha, pode ser gay. Mas vai ter que esperar um pouco para isso acontecer. Tem que crescer primeiro.
- Mãe, mas eu quero ser gay hoje!
A mãe olhou para a TV e deu de cara com uma drag queen toda de rosa, até os cílios postiços, imensos.
- Ah, filha, mas aí você está falando de drag queen. Mulher não consegue se vestir de drag queen. Eu até tentei, mas levei um fora horrível de um grande amigo. Parece que não dá, mesmo.
- Isso não é justo! Quer dizer que eu não posso ser neguequim só por que eu sou uma menina? Mas olha aí, ela está de rosa.
- É ele, filha. É um homem que decidiu se vestir de mulher.
- Mas eu já me visto de mulher, eu sou mulher, oras. Eu quero ser neguequim. Eu vou falar para o meu pai.
- Vai, ele vai cair pra trás.
Quem tem muitos livros sabe: pintar a casa é um inferno. Tem que encaixotar tudo, depois arrumar tudo de volta. E a caixa é pesada, e tem que lembrar, no meio da reforma, onde está aquele exemplar importantíssimo para algo que se quer escrever… Ainda assim, ela permitiu a reforma, de tanto que o marido insistiu.
Gastaram um absurdo, já que a tinta tinha que ser uma tinta mega ultra power high supersônica antialérgica. Ainda assim, enfrentaram o desafio.
Três dias depois, a filha resolve redecorar o quarto do casal com vários carimbos da Hello Kitty. Enlouquecida, ela olha para o marido, aquele culpado pelo gasto à toa e sentencia:
- Resolve você, eu não quero nem pensar nisso, senão não vai prestar.
Ele olha para a filha, quase chorando:
- Filha, por que você fez isso? O nosso quarto está parecendo a Vila da Floresta.
- Pois é, papai, é um presente para vocês. Assim vocês dormem em um quarto de sonhos. Daquele jeito estava muito feio. Ficou lindo. Olha, é rosa. E a Hello Kitty está rindo.
- Vocês viram que a mega sena acumulou? Eu vou já jogar. Pode escrever aí: semana que vem vou comprar uma casa imensa, um carro igual ao do Romário e ainda vou viajar pela Europa.
- Tio, aproveita que você está sonhando e pede isso pro Papai Noel. Pode ser que ele atenda o seu pedido.
- Mamãe, por que as pessoas mentem?
- Ah, filha, cada um é de um jeito. Tem gente que mente, tem gente que fala a verdade. Às vezes, mesmo quem fala a verdade precisa mentir. Imagina se uma amiguinha sua chegar na aula com um cabelo horrível.
- Enfeite laranja no cabelo é horrível.
- Então, imagina uma amiga sua com um enfeite laranja no cabelo. Aí ela pergunta a você se você gostou do cabelo dela. Se você disser que não, ela pode ficar triste, e até chorar. Então é melhor você deixar pra lá e dizer que gostou. Mas por que você quer saber disso? Aconteceu alguma coisa?
- Não, mãe, é que eu não aguento mais essa história de cegonha. Esse pessoal nunca ouviu falar de sexo, não?
- Vamos à livraria?
- Vamos.
- E eu, mamãe?
- Você vai conosco, claro.
- Não, mamãe, não quero.
Choro desesperado.
- Por que filha?
- O Nosco, não, o Nosco é ruim, o Nosco bate em criança. Eu tenho medo do Nosco.
- Esse aqui é o seu bisavô.
Longa pausa.
- O que foi, filha?
- E quem é o meu bisotio?
- É bom você parar com isso, senão a casa vai cair para o seu lado.
- Pelo amor de Deus, mãe, vamos correr logo, senão a gente vai morrer com a casa em cima da gente
- Mãe, você precisa parar de brigar assim comigo. Isso não é coisa de rainha, é coisa de bruxa. E se você é uma bruxa, eu vou ter que viver longe de você, pois eu sou uma princesa. E você vai sofrer muito.E acabar morrendo, igual toda bruxa.
- Eu adoro esse hambúrguer circulante.
- Isso é uma esfirra, filha.
- É nada, é uma pizza com um hambúrguer dentro. É um hambúrguer circulante.
- Filha, o que é isso?
- É o número 2, claro.
- Não é, não. Isso parece o número 2 para você?
- Parece, sim, só que está em inglês.
- Mãe, não adianta, eu vou namorar com o meu primo e você não vai me impedir.
- Mas eu não estou falando nada…
- Estou avisando, antes que você fale.
- Mas você só tem três anos?
- Não falei? Você não vai me impedir. Ele estuda comigo.
O que essa menina vai aprontar aos 15?
Ela estava aprendendo sobre Monteiro Lobato na escola. Aos três anos e meio, claro que a obra estudada era o Sítio do Picapau Amarelo. E era um tal de conta história, assiste ao programa de TV, comenta sobre isso com a família…
- Mãe, eu adoro o Sítio do Picapau Amarelo.
- Eu também adorava, filha. Sabia que eu queria ser a Narizinho para casar com o Príncipe das Águas Claras?
Risinhos abafados. Ela deve ter pensado que a mãe é mais maluca que ela pensava.
- Mãe, me leva para conhecer o tio Lobato?
- Ih, filha, não vai dar.
- Por que você não quer que eu conheça o tio Lobato?
- Não é isso, filha. O problema é que o Monteiro Lobato morreu.
- Morreu como? Morreu e você não me apresentou a ele? Como o tio Lobato morreu sem eu ter conhecido ele? Eu não acredito nisso, não acredito. Não é justo!!!
Choro intermitente. Alto. Estridente.
Passou três dias amuada e até hoje fica emburrada quando se fala em Sítio do Picapau Amarelo.
Mais hardcore que música do Rammstein é parquinho infantil, por menor que seja. Milhões de crianças gritando, guloseimas com cores que só se extrai de petróleo, músicas de fazer sangrar o cérebro, vendedores ambulantes com produtos chamativos e inúteis, mães histéricas…
Quero saber que horas que as mães padecem no paraíso. Isso aqui é a visão do inferno! Colocou a filha em um brinquedo que não deve nem ter nome e imediatamente ligou o mp3. Ao som de Placebo, isso aqui parece um filme apocalíptico.
O tempo do brinquedo acabou e ela tirou a filha, que queria ir para a pescaria. Só que no caminho a criaturinha, que podia até subir azulejo molhado de costas de tão danada que era, resolveu escalar uma barraca qualquer. Por fora.
- Desce, meu bem – nada, a pestinha continuava com o seu firme propósito de alcançar o céu.
- Filha, você vai ficar de castigo.
- Só quando eu descer, né, mãe – e continuava subindo.
- Filha, ou você desce ou você vai cair. Você já viu como o chão é duro? Você vai bater a cabeça, aí a sua cabeça vai rachar e o seu cérebro vai escorrer todo. Aí você morre.
A menina se convenceu e desceu. Ela notou que havia algo estranho. De repente, caiu em si: praticamente todas as mães a observavam, petrificadas. Uma criança começou a chorar, dizendo que não queria morrer também. Ela bem que tentou sair de fininho, com a filha no colo, mas quem consegue ficar anônimo com um espetáculos desses?
A amiga da mãe chega de preto, com longas unhas vermelhas e um cabelão ruivo cacheado. Extravagância em pessoa. Cheia de gargalhadas e gestos e firulas. Pede uma água com gás, coloca no copo e continua contando a sua história…
A filha, observando tudo com os olhinhos assustados, tapa a boca com as mãos e diz:
- Pelo amor de Deus, mamãe, ela é uma bruxa!
- Filha, deixa disso. Que história é essa?
- Ela é uma bruxa, sim. Ela veste essas roupas, tem esse cabelão e o pior – aponta para o copo com a água gaseificada – olha, ela faz a água chover pra cima!
- Mãe, o que é biba?
- Onde você ouviu isso?
- No Big Brother.
Eu odeio o Big Brother, com todas as minhas forças. Respiração profunda.
- Filha, biba é um nome horrível que pessoas burras dão para homem que namora homem.
- Homem namora homem?
- Se ele quiser pode. Não tem problema algum para as pessoas que são inteligentes.
- E mulher, mãe? Namora mulher?
- Se quiser, pode também.
- E como chama?
- O quê?
- Homem que namora homem, claro, né, mãe…
- Chama pelo nome da pessoa, oras…
- E se homem namora homem, príncipe pode namorar príncipe e princesa pode namorar princesa?
- Pode, sim…
- E por que você não namora uma princesa?
- Porque eu acho sapos mais atraentes.
- Pirou, foi mãe?
Gargalhada solta, livre, de quem sabe que a vida é simples assim.
