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Ele odiava o Natal. Com todas as forças do universo. Amigo oculto, confraternizações, gente alegrinha demais e solidárias demais por 15 dias… Nada disso o convencia.  E o pior é que o evento da firma, não dava para faltar: gente bêbada, inconveniente,  impertinente, comida ruim, música péssima. E o pior: fora sorteado. Ganhou um livro horrível, que encostou pela sala, nunca teve vontade de abrir. Vai servir de peso de papel, essa porcaria.

Seu único consolo na época, sua amada TV de LCD, começou a dar problema. Foi um tal de leva para assistência, devolve sem problemas, falha em casa, volta para assistência e não dá em nada, que ele se estressou. Muito. Pegou o tal livro e, em um momento de privação de sentidos, arremessou-o contra a maldita TV.

A TV pegou. E nunca mais deu problemas.

- Sim, mas me conta uma coisa: como era o nome do livro, mesmo?

- O Poder da Palavra.

Ainda ficou com raiva porque a família inteira não conseguia parar de rir.

Ou: mais uma festa de família.

 

- O que ela está comendo?

- Empada de camarão com calda de chocolate.

- Credo!

 

Os adolescentes da família ligam uma parafernália de DVD, TV, som e criam um home cinema mal ajambrado. Com um volume ensurdecedor, botam o Belo para cantar qualquer porcaria. Um dos tios, já chegando aos 60, berra:

- Aí é palhaçada, tira essa merda e põe algo que preste.

- Roberto Carlos? – ironiza um dos sobrinhos.

- Meu filho, olha aqui um DVD do U2 ao vivo. Põe Elevation para eu esquecer que os meus ouvidos foram insultados esta noite.

 

- Que camiseta horrorosa!

- Como???

-Essa sua camiseta, é horrível. Esse cara aí com um cílio postiço, esse chapéu estranho, dentro de um círculo laranja… Credo, eu, hein.

- Ignorante.

- O quê?

- Tu só vais ao cinema para assistir ET e Titanic, né? Nunca ouviu falar em Laranja Mecânica, não, ô Mané?

- O que é isso?

- Vou buscar outra cerveja.

 

- Ai, no carnaval passado eu consegui ficar três dias direto pulando. Não conseguia nem comer.

- Como você agüentou?

- Tomei 12 cápsulas de guaraná. Tudo de bom.

- E eu que estou há seis noites sem dormir?

- Tomou guaraná, também, é?

- Não, insônia mesmo.

 

- Olha aquele malandro, safado, sem vergonha. Vem cá, cretino! Seu tarado!

- Ei, ele está formando em medicina…

- Piorou.

 

A garotinha chega chorando.

- Mãe, eu cresci.

- Que bom, filha.

- Não, mãe, eu quero ficar pequena. Se eu crescer, ninguém vai me dar presente.

 

A matriarca da família, passando dos 80 anos, declara:

- Quero ir embora.

- Eu levo a senhora, mamãe.

- Não, quem vai levar sou eu.

- Mas você trouxe. Eu levo.

- Não, senhora. Ela vai é comigo. Eu preciso conversar com a mamãe.

- Eu também, e aí?

- Ei, mãe, para onde a senhora vai?

- Pegar um táxi. Não aguento mais vocês.

 

- Ei pessoal, já são 11h, vamos todos embora que hoje é terça. E tem mais, hein… Aqui só tem sequelado… Vou botar ordem nessa bagunça.

- Pára, amor. A gente pelo menos conhece as maluquices um do outro… E aquelas famílias que fingem ser perfeitinhas e quando levanta o tapete é só tapuru?

- Porra, tapuru me dá nojo. Preciso beber para esquecer. Aí, macacada, o encerramento da festa está cancelado. Desce mais uma!

O dono da casa se joga na cadeira, desanimado.

 

8 moleques, 8 blocos, 256 apartamentos,  uma missão: sacanear um aniversariante. Fazendo as contas, parecia vantagem buscar apoio dos vizinhos para tacar ovo no amigo que estava fazendo aniversário:

- Vamos nos dividir em quatro duplas. Cada dupla fica com dois blocos, vamos pedir ovo ou qualquer coisa que mele. Daqui a uma hora a gente se encontra no salão de festas para fazer as contas do que conseguimos. A gente não pode esquecer de falar por favor e muito obrigado. E é importante marcar quem vai ajudar a gente, da próxima vez a gente só vai nesses apartamentos.

- Beleza!

Dividiram-se e começaram a bater de porta em porta:

- Quem é?

- Vizinha, bom dia. A gente queria saber se a senhora tem um ovo para nos dar, é aniversário do nosso amigo e a gente gostaria de tacar na cabeça dele.

Respostas encontradas:

- Eu vou socar o ovo é no rabo de vocês. Vão embora daqui!!!

- Ah, tá, pega.

- Ah, meu filho, vocês são tão educadinhos, mas eu não tenho ovo. Só trigo (ou catchup, ou mostarda, ou molho inglês, ou qualquer coisa que sirva para comer e melar). Peguem.

- Ei, vocês não têm mãe, não, hein? Vão estudar, vão se ocupar com algo útil. Por isso é que eu não gosto de condomínio, é cheio de marginal. E vocês ainda nem entraram na adolescência direito. Vão embora antes que eu chame o Conselho Tutelar e ferre com os pais de vocês.

- Caramba, eu estava dormindo. Quer saber, lá vai ovo.

Ploft, ovo na cabeça de um deles.

Passado o tempo combinado, encontraram-se no salão de festas. Contabilidade da rodada de negócios:

27 ovos

4 quilos de trigo

Dois vidros de mostarda, três de catchup e um de molho inglês.

Uma garrafa de sabão líquido.

Uma nota de R$ 2,00 (“a mulher ficou com pena da gente e deu dinheiro. Ela disse que só come de marmita”).

Três pacotes de café.

Um quilo de arroz, o que gerou mais polêmica:

- Arroz? Mas arroz não mela!

- Mas foi o que a mulher deu.

- Não aceitasse e fosse embora.

- Não, cara, pensa bem. Da próxima vez ela pode dar algo mais nojento, sei lá, óleo de salada.

- Meu pai falou que essa parada é cara.

- Ah, e teu pai é cozinheiro, é? Não é ele que não sabe nem ferver água? Como ele vai saber o que é óleo de salada e quanto custa?

- Ah, sei lá, nunca parei para pensar nisso, mas ainda assim acho que o arroz foi um investimento.

- Eu odeio arroz.

- E quem tá dizendo pra tu comer, cabeção?

- Ei, vocês dois, vão ficar se declarando até quando? A gente tem um trabalho para fazer, lembram? Vamos lá na casa do Minhocão. E vamos levar o arroz, porque de repente ele deve ficar nojento se misturado com esse monte de coisa que a gente conseguiu.

Chegaram à casa do Minhocão.

- Mãe, os meninos estão aqui para tacar um monte de coisa na minha cabeça.

- Ah, não, filho, vai lá pra rua, senão vai ficar uma fedentina danada aqui.

- Mas mãe, briga com eles, eu não quero ovo na minha cabeça.

- Eu, não, te vira. Eu passei por isso, você tem que passar também. Ei, galera, levem ele para a rua. Está tudo limpo aqui para a festa da noite. Senão não vai ter aniversário. E toma banho lá na área da piscina para não empestear a casa!

Deixaram o coitado do Minhocão em petição de miséria.  Após rir muito, um deles lembrou:

- Ei, Batata, não te empolga muito, não. O próximo é tu.

- Poxa, eu até acertei com o meu pai para pagar uma tarde inteira de boliche pra gente. Vocês podiam considerar.

- Nada a ver. A gente taca ovo antes e dá tempo de tu te limpar para a gente sair.

Desde então, virou tradição: no aniversário de cada um deles uma rede de solidariedade contribui para a melequeira. O síndico até destinou um local especial para a chacina. E alguns vizinhos, de tanto ajudar, até participam do mela-mela.

por Aline Lira

Era o aniversário de um dos irmãos, e foram todos comemorar em sua casa. Festinha comum de família: churrasco, alguém traz uma torta, alguém fez isso ou aquilo e no final tudo dá certo e surge até uma oportunidade para puxar a orelha do irmão mais novo, que nem é tão novo assim, já que está com 31, namorando há exatos seis anos e nem pista de que vai haver um compromisso mais sério.

O irmão mais velho, imbuído da autoridade de dono da casa, de aniversariante e de crítico da família, olha para a eterna futura cunhada e fala, em um tom solene:

- Minha irmã, quando é que você vai engravidar?

- Não, a gente primeiro vai casar.

- Em 2010 – gritou de longe o irmãozinho.

- Que casar, que nada. Escuta o que eu estou te falando: esse meu irmão é pilantra, não vai casar nunca com você. Não vai nunca querer ter uma responsabilidade de família.

A irmã, que é a filha do meio (por que os filhos do meio são os mais encrenqueiros?) vira-se para o irmão e para a eterna futura cunhada e dá o parecer:

- Ele vai ficar com você até achar uma gatinha de 16 e aí já era, minha filha. Arruma logo um filho que ele vai ter que casar.

A mãe que, esperava-se sair em defesa do filhinho, grita:

- É, eu estou doida para ter um neto. Mas não vou tomar conta, não, hein, é só para brincar. E para passear.

- Mãe, até a senhora? Eu preciso me estabilizar, preciso comprar um apartamento, preciso…

- Que, meu irmão, precisa nada. Quando eu casei, não tinha quase nada, agora olha aí… Olha a minha casa. Se eu não tivesse casado eu não tinha nem metade do que tenho hoje. O cachorro preto fez eu me virar para arranjar dinheiro.

- É, e você precisa amadurecer, precisa ter mais responsabilidades. Eu tenho certeza de que quando você casar você vai melhorar muito – reforçou a irmã.

- Não, mas não é bem assim.

A futura cunhada, sentindo que estava contando com o apoio da família, falou:

- É, a gente tem que ficar pelo menos noivo logo.

- Eu dou a aliança – adiantou-se o aniversariante.

- Vocês ficaram loucos? Não sabem que noivado é algo que não dá certo na nossa família? Piraram? Menina, pula essa fase, casa logo. Não quer ter filho, tudo bem, mas casa logo. Olha, que eu conheço o meu irmão, ele vai te enrolar.

- Mas a gente não tem dinheiro para a festa.

- Então não faz festa. Ou melhor: eu vou fazer um livro de ouro e pedir doação para os seus amigos ajudarem na festa. Todo mundo te adora, quero ver quem vai recusar. Só na nossa família dá para levantar uma grana.

Calado o tempo inteiro na discussão, o cunhado observa:

- Eu pensei que eu estava na família errada. Não era a família da noiva quem deveria fazer isso? Em dois tempos vocês resolveram engravidar a menina, casar os dois, venderam uma casa, compraram um terreno… As coisas acontecem rápido nessa família, hein?

Deixou claro que era só uma brincadeira, rapidinho deu apoio aos irmãos, porque desde cedo aprendera que com cachorro, menino e doido não se discute.

por Aline Lira

- Vem conhecer meu sobrinho. Ele só se veste assim, mas é advogado.

- Cara, eu nunca sei o que dar para a minha namorada. Ela não gosta de maquiagem, não gosta de vestido, nem de sandália, não gosta de bolsa, só de mochila…

- Dá um videogame.

Ele era um bebê muito gordinho e baixinho. A mãe resolveu vesti-lo de branco no Natal e os primos já maiores apelidaram-no de frigobar. Hoje, aos 18 anos, 1,86 metros e corpo atlético ele chega para o almoço de Natal com a namorada. Um dos primos, ao avistá-lo, grita:

- Vai, frigobar!

- Amor, por que te chamam de frigobar?

- Porque eu como muito.

- Não colou, não.

- Ah, deixa pra lá.

Até o ano anterior, o Papai Noel era interpretado pelo ex-marido de uma das irmãs, que era bem gordinho. Como ele não fazia mais parte da família, o cargo foi transferido para o irmão mais novo, um adolescente bem franzino. Ao chegar com o saco de presentes, no meio da festa, gargalhada geral.

- Olha só, o Papai Noel fez cirurgia de estômago.

- Coitado, ele pegou Ebola. Ou foi uma virose desconhecida?

- Eu acho que ele está sofrendo de amor.

Irritado, o jovem Papai Noel arrancou a barba, o gorro, jogou o saco no chão e saiu pisando duro.

- Pois agora não tem mais Papai Noel!

Choro em coro das sete crianças que estavam no local, desesperadas com a possibilidade de não mais ganhar os presentes que estavam no saco. A matriarca da família aproveitou para inaugurar uma nova tradição.

- Pois agora não tem mais Papai Noel mesmo. Só Mamãe Noel.

Saiu distribuindo os presentes e divertindo mais que qualquer Papai Noel que já tinha passado pela família.

Como ela era a única criança da família, ganhou muitos, muitos presentes. Até um vestido de princesa e uma das musas do Castelo de Diamante, além de lousa da Vila Sésamos, uma Branca de Neve no cavalo encantado, alguns kits de brinquedinhos e por aí vai. Rodeada de brinquedos, ela sentou, triste, e começou a chorar.

- O que foi, filha?

- Eu já ganhei brinquedo demais e sou muito danada. Acho que o Papai Noel não vai me dar a Liana.

- Vai sim.

- Vai nada. Você conhece ele, por acaso? Ele só dá brinquedo para criança boazinha e eu sou muito danada.

- Então fica quieta a partir de agora que ele vem.

Criança faz pose de estátua para aliviar o seu complexo de culpa.

No Natal da família nada convencional, a mãe começa a assistir Mamma Mia! Ao ver a Meryl Streep cantando e dançando, a filha pergunta.

- Mãe, essa é a tia da Madonna?

Para continuar assistindo ao seu filme em paz, a mãe confirma.

- Obaaaaaaaa, eu adoro da tia da Madonna. Mamma mia, mamma mia….

 

 

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