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Os Brutos Também Amam

Vila Madalena, Essepê

Tente lembrar. Se for necessário, se esforce mais um pouco. Houve, sim, uma primeira vez no motel. A daquele casal foi um desastre, embora tudo indicasse que seria a melhor noite de suas vidas.

Os coitados juntaram um bom dinheirinho, para poder ficar o tempo que quisessem, para comer o que desse na telha. Assim foi. O frigobar ficou mais vazio que geladeira de homem solteiro, até porque nem a água foi poupada.

Acontece que, na hora de sair, deu tudo errado.

- Houve consumo de frigobar?

- Houve, sim, não estava incluído na diária?

- Não, senhor, só o almoço executivo. Vamos mandar verificar, aguarde um pouco.

O valor declarado pelo atendente era imoral, indecente, impublicável.

- Amor, nós não temos esse dinheiro.

- E agora? Eu só tenho mais isso aqui, ó, pega. Mas ainda vai ficar faltando R$ 150,00.

- Então, um de vocês vai ter que ficar aqui enquanto o outro consegue a grana, é o jeito.

Ele se vira para a amada:

- Amor, você não dirige, o jeito é ficar, então.

- Eu não quero ficar, não.

- Não tem outro jeito.

- Promete que não demora, estou morrendo de vergonha.

- Não, eu juro, juro. Me dá um beijo. Fica tranquila.

Ele saiu, foi em casa, em busca de dinheiro. Só tinha R$ 80,00. Ligou para um amigo, conseguiu mais R$ 30,00. Os R$ 40,00 restantes ele conseguiu com três vizinhos, que fizeram uma cotinha.

- Ei, já que a gente está financiando a tua farra, me explica, a tua namorada não quis te matar, não? Deixar ela empenhada no motel… Se fosse a minha, chuparia o meu cérebro pelo ouvido.

- Rapá, tá por fora.Ela gosta muito de mim. Faria qualquer coisa por mim, até me esperar no motel.

- Vai nessa…

Chegando ao motel, ele entrega o dinheiro, resgata a namorada e a leva para casa. Na frente da casa da moça, ela reage: enfia uma bolacha na cara do folgado.

- O que é isso, meu bem?

- É a certidão do fim do nosso namoro. Tá pensando o quê, que pode me deixar presa em motel? Me esquece.

- Mas você não dirige.

- Isso não é problema, táxi existe pra isso. Ou eu poderia ter chamado uma amiga. O que não podia era você ter decidido isso na frente do cara. Não tive nem como dar outra solução, de tanta vergonha que senti. Me esquece.

 - Mas amor…

Portão fechado, conversa encerrada, namoro desfeito. Para sempre.

Ele foi assaltado à mão armada. Ameaçaram-no de morte, queriam levá-lo, mas o cachorro dele protestou. Acabaram levando o carro, a máquina fotográfica, o celular e o dinheiro.

- Olha, era para eu morrer. Eram dois caras com revólveres, outros dois me ameaçando, me puxando pra dentro do carro. Eu disse que se era para morrer, que preferia que fosse na frente de casa. Mas aí meu cachorro começou a latir muito, os vizinhos começaram a chegar nos portões, eles se assustaram e foram embora com o carro. Ainda bem que eu estava com o meu terço da sorte. A irmã interrompeu:

- Terço da sorte? Aí é mito, maninho. Pensa bem: quando você tinha 16 anos, achou o terço pendurado em uma árvore. Então foi passear de bicicleta e dois caras armados levaram o teu camelo. Então, alguns anos depois, você compra seu primeiro carro. Sai com o terço, como sempre, e o carro é roubado. E agora essa? Ah, não, esse terço é amaldiçoado, joga isso fora, por favor.

- Mas é um terço!

- Amaldiçoado. Você está proibido de entrar aqui em casa com ele, pode até acontecer um incêndio, quem sabe…

- Exagerada.

Quem tem muitos livros sabe: pintar a casa é um inferno. Tem que encaixotar tudo, depois arrumar tudo de volta. E a caixa é pesada, e tem que lembrar, no meio da reforma, onde está aquele exemplar importantíssimo para algo que se quer escrever… Ainda assim, ela permitiu a reforma, de tanto que o marido insistiu.

Gastaram um absurdo, já que a tinta tinha que ser uma tinta mega ultra power high supersônica antialérgica. Ainda assim, enfrentaram o desafio.

Três dias depois, a filha resolve redecorar o quarto do casal com vários carimbos da Hello Kitty. Enlouquecida, ela olha para o marido, aquele culpado pelo gasto à toa e sentencia:

- Resolve você, eu não quero nem pensar nisso, senão não vai prestar.

Ele olha para a filha, quase chorando:

- Filha, por que você fez isso? O nosso quarto está parecendo a Vila da Floresta.

- Pois é, papai, é um presente para vocês. Assim vocês dormem em um quarto de sonhos. Daquele jeito estava muito feio. Ficou lindo. Olha, é rosa. E a Hello Kitty está rindo.

- Mãe, eu tô com dor de cabeça. Não vai dar para ir pra aula amanhã.

- Ah, filha, dorme. Até amanhã a dor passa.

- Mãe, tá doendo muito.

Essa menina tá com manha. Isso é coisa de quem não quer ir pra aula, isso sim.

- Filhinha, não tenho remédio aqui. Já está tarde, a drogaria já fechou. Quando o seu pai chegar, ele traz, ta? Agora tenta dormir um pouco, que passa.

- Mãe, pensa que eu sou burra, é?

- Por quê?

- É só ligar para a China. Lá é de dia. O motoqueiro traz o remédio de lá, oras…

Todo mundo, no universo, tem aquela prima inconveniente e invejosa. Aquela chata, que todo mundo atura porque é filha daquela tia adorada por todos, mas que poderia ter feito o favor de não existir, mesmo.

Essa, então, nem se fala. Além de chata, ela vivia espetando os primos e tios. Era por causa do carro de um, do sapato de outro, da barriga daquela, da blusa dessa outra… Pra tudo ela tinha uma gracinha ou um comentário maldoso. Como ninguém enfrentava a chata, ela continuava o seu ofício de atazanar a vida de Deus e o mundo.

Só que ninguém avisou que a segunda esposa do primo era osso duro de roer, não levava desaforo para casa e, pior, era capaz de matar um por sua cria. Onça, mesmo.

- Ai, a filha de vocês é muito linda e inteligente. Pena que na maioria das vezes crianças bonitas viram adultos horrorosos.

- Ah, agora entendi…

- O que foi?

- Você deve ter sido um bebê tão lindo… E, pelas suas leis de probabilidade, sua filha com certeza vai ganhar algum concurso de miss. E o seu marido, querida, com certeza foi uma criança prodígio. É o melhor exemplar de anta catatônica que eu já vi na minha vida.

Todos, meio que se sentindo vingados, começaram a rir muito, fazendo aquele barulho típico de curtição em família. Só silenciaram quando a matriarca, do alto dos seus mais de 80 anos, soltou o que estava preso na garganta…

- E o corte do teu cabelo viajou no tempo. Veio da década de 70.

- Mas vó, até a senhora?

- É, minha filha, quem não tem espelho em casa é um problema. Nessa família todo mundo é feio. Mas ninguém é chato ou inconveniente. Você veio para confirmar que o melhor é viver desse nosso jeito, mesmo. Mas a gente gosta de você. Uns mais, a maioria menos, mas gostamos.

- Poxa vó…

- Poxa, nada, vai arrumar que fazer e para de se preocupar com a vida dos seus primos.

- Eu estava com saudade. Mamãe, você ficou com saudade de mim hoje?

- Morri de saudades, filha, pensei em você o dia todo.

- Mas eu estava numa nuvem?

- Preciso falar uma coisa sobre o seu pai: ele é sonâmbulo. Ou seja, ele transmite, em tempo real, o que está sonhando.

A enteada começa a rir, e o pai, que ouvia a conversa, protestou:

- Sou nada. Ninguém, até hoje, testemunhou nada, só você. Tenho certeza de que isso é só mais uma de suas gracinhas.

- Ah, é? E como eu inventei aquela história que eu acordei um belo dia e você estava danado enroscando os puxadores do guarda roupa, no meio da noite, insistindo que estava consertando a parte de cima do robô? E aquele dia em que você puxou o meu travesseiro, jogou em cima de mim, junto com os seus, como se eu tivesse arrumando uma briga com você? E aquele dia em que…

- Minha filha, não dê ouvidos. Sua madrasta é uma louca, isso é intriga da oposição.

Além de não ter falhado, a justiça, nesse caso, nem tardou. Estavam a madrasta e a enteada assistindo a um filme, e o pai dormindo calidamente no sofá, tarde da noite. De uma hora para outra, ele dá um pulo e começa a falar:

- Filha, está tudo bem aí? A sua madrasta está tratando você bem? Você precisa de alguma coisa?

A filha, coitada, morrendo de susto e medo, não conseguiu falar nada, nadinha. A madrasta, já acostumada ao ofício de dialogar com sonâmbulos, respondeu:

- Está tudo ótimo. Já dei uns tapas na sua filha, daqui a pouco eu encho a cara dela de porrada.

Ele, com aqueles olhos esbugalhados e vidrados, responde:

- Beleza!

Como um anjo, volta a dormir.

- Não falei?

No dia seguinte, aos risos, ela informa:

- Pai, o senhor é sonâmbulo, mesmo.

Ela conta a história, com riqueza de detalhes.

- Ah, então quer dizer que vocês duas passam a noite inteira combinando como vão aprontar comigo, é? Não acredito nessa história de vocês, não, palhaçada…

Ela adorava o namorado por muitos motivos, mas o principal deles era a retidão de caráter. Mais politicamente correto, impossível. Todos os fracos e oprimidos eram por ele amparados, e ela via nisso o traço de uma pessoa realmente boa. Coisa rara de se ver hoje em dia, pensava ela, enquanto se sentia uma das pessoas mais sortudas do mundo por ter encontrado alguém assim.

Até que um dia, a caminho de um restaurante, ele apontou, para um cruzamento:

- Aqui eu atropelei um palhaço.

- Eu não acredito. Você atropela um pobre coitado e ainda faz pouco dele? Eu pensei que você era uma pessoa melhor. Não é possível. Não me surpreenderia se você não o socorreu.

Cruzou os braços, bufou, virou a cara e ficou com cara de poucos – ou nenhum – amigos.

- Mas meu bem, eu atropelei um palhaço.

- E você vai insistir nisso?

- Não, é sério. Atropelei aquele  cara do circo, que se veste engraçado para distrair as pessoas. Ele estava divulgando o trabalho dele, só que se jogou em cima do carro para fazer graça e eu não vi. Resultado: o palhaço rolou no carro, mas acostumado a cair para fazer palhaçada, ficou bem, não sofreu nenhum arranhão.

- Ah, bom.

Com o tempo, ela descobriu que ele era dado a fazer gracinhas com palhaços, sendo ele, portanto, classificado como um deles. Como no dia em que pegou o chefe:

- Chefe, eu tenho aqui uma solicitação de adequação de salário. É um pouco incomum. Se o senhor quiser analisar antes de eu dar seguimento ao processo, é só falar.

- Qual é o problema?

- O palhaço está pedindo adequação de salário, e a função dele não consta na descrição de cargos e salários da instituição.

- E esse cara é abusado, assim, para você chamá-lo de palhaço?

- Não, chefe, ele é palhaço, mesmo, por profissão. Ele foi contratado para animar os eventos internos e externos.

E ainda dizem que ele é o sério do casal.

Primeiro ela passou uns dias só falando do primo: ele era grudento demais, não largava do pé dela, não deixava ela ficar só com as amigas. Com o tempo, a coisa foi ficando séria e ela resolveu pular os entretantos e casar. É, casar, as coisas não acontecem hoje numa velocidade estonteante?

Preparou os convites, distribuiu para a família apenas, já que ela gosta de pequenas reuniões, e só então foi contar para o noivo. O moço não só saiu correndo como o diabo da cruz, como também teve um ataque de choro. Inconsolável. Afinal, era um solteirão convicto. Abalada, desolada, descontrolada, ela resolveu desabafar com a mãe.

- Mãe, você acredita que eu falei para o meu primo que ele ia casar comigo e ele chorou na minha cara? Na minha cara, mãe!

- Mas filha…

Antes que a mãe pudesse concluir sua fala, ela esgarçou a camiseta com as duas mãos, deixando o tórax quase inteiro à mostra, e aos berros, com uma cara de sofrimento sem fim, decretou:

- Olha aqui, o meu amor quebrou!

Juntou os convites que ainda não distribuíra, amassou e jogou no chão. Num repente de orgulho, bateu o pé, deu uma meia volta e declarou, com as mãos na cintura:

- Também eu não caso nunca mais.

- Filha, você tem futuro. Se aos três anos você está desse jeito, aos 15 você consegue um papel em um filme de Almodóvar. E vai ser candidata ao Oscar, escreve o que eu estou dizendo.

- Pirou, foi mãe? Esqueceu que eu não sei escrever? Só sei cobrir linha…

 

 

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