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Ele foi assaltado à mão armada. Ameaçaram-no de morte, queriam levá-lo, mas o cachorro dele protestou. Acabaram levando o carro, a máquina fotográfica, o celular e o dinheiro.
- Olha, era para eu morrer. Eram dois caras com revólveres, outros dois me ameaçando, me puxando pra dentro do carro. Eu disse que se era para morrer, que preferia que fosse na frente de casa. Mas aí meu cachorro começou a latir muito, os vizinhos começaram a chegar nos portões, eles se assustaram e foram embora com o carro. Ainda bem que eu estava com o meu terço da sorte. A irmã interrompeu:
- Terço da sorte? Aí é mito, maninho. Pensa bem: quando você tinha 16 anos, achou o terço pendurado em uma árvore. Então foi passear de bicicleta e dois caras armados levaram o teu camelo. Então, alguns anos depois, você compra seu primeiro carro. Sai com o terço, como sempre, e o carro é roubado. E agora essa? Ah, não, esse terço é amaldiçoado, joga isso fora, por favor.
- Mas é um terço!
- Amaldiçoado. Você está proibido de entrar aqui em casa com ele, pode até acontecer um incêndio, quem sabe…
- Exagerada.
Quem tem muitos livros sabe: pintar a casa é um inferno. Tem que encaixotar tudo, depois arrumar tudo de volta. E a caixa é pesada, e tem que lembrar, no meio da reforma, onde está aquele exemplar importantíssimo para algo que se quer escrever… Ainda assim, ela permitiu a reforma, de tanto que o marido insistiu.
Gastaram um absurdo, já que a tinta tinha que ser uma tinta mega ultra power high supersônica antialérgica. Ainda assim, enfrentaram o desafio.
Três dias depois, a filha resolve redecorar o quarto do casal com vários carimbos da Hello Kitty. Enlouquecida, ela olha para o marido, aquele culpado pelo gasto à toa e sentencia:
- Resolve você, eu não quero nem pensar nisso, senão não vai prestar.
Ele olha para a filha, quase chorando:
- Filha, por que você fez isso? O nosso quarto está parecendo a Vila da Floresta.
- Pois é, papai, é um presente para vocês. Assim vocês dormem em um quarto de sonhos. Daquele jeito estava muito feio. Ficou lindo. Olha, é rosa. E a Hello Kitty está rindo.
- Preciso falar uma coisa sobre o seu pai: ele é sonâmbulo. Ou seja, ele transmite, em tempo real, o que está sonhando.
A enteada começa a rir, e o pai, que ouvia a conversa, protestou:
- Sou nada. Ninguém, até hoje, testemunhou nada, só você. Tenho certeza de que isso é só mais uma de suas gracinhas.
- Ah, é? E como eu inventei aquela história que eu acordei um belo dia e você estava danado enroscando os puxadores do guarda roupa, no meio da noite, insistindo que estava consertando a parte de cima do robô? E aquele dia em que você puxou o meu travesseiro, jogou em cima de mim, junto com os seus, como se eu tivesse arrumando uma briga com você? E aquele dia em que…
- Minha filha, não dê ouvidos. Sua madrasta é uma louca, isso é intriga da oposição.
Além de não ter falhado, a justiça, nesse caso, nem tardou. Estavam a madrasta e a enteada assistindo a um filme, e o pai dormindo calidamente no sofá, tarde da noite. De uma hora para outra, ele dá um pulo e começa a falar:
- Filha, está tudo bem aí? A sua madrasta está tratando você bem? Você precisa de alguma coisa?
A filha, coitada, morrendo de susto e medo, não conseguiu falar nada, nadinha. A madrasta, já acostumada ao ofício de dialogar com sonâmbulos, respondeu:
- Está tudo ótimo. Já dei uns tapas na sua filha, daqui a pouco eu encho a cara dela de porrada.
Ele, com aqueles olhos esbugalhados e vidrados, responde:
- Beleza!
Como um anjo, volta a dormir.
- Não falei?
No dia seguinte, aos risos, ela informa:
- Pai, o senhor é sonâmbulo, mesmo.
Ela conta a história, com riqueza de detalhes.
- Ah, então quer dizer que vocês duas passam a noite inteira combinando como vão aprontar comigo, é? Não acredito nessa história de vocês, não, palhaçada…
Eu nasci dia primeiro de abril. É, isso mesmo, ontem foi o meu aniversário. Logo, eu vivo ouvindo gracinhas por conta do dia em que eu fico um pouco mais velha. E isso desde a maternidade.
Como eu nasci de madrugada, meu pai ligou para a minha avó de manhã cedo:
- Minha filha nasceu!
- Ah, tá.
- Eu não entendi a sua reação. A sua primeira neta acabou de nascer, sua filha está dando de mamar para ela agora!
- Ah, tá.
- O que eu fiz para a senhora? A senhora está entendendo o que eu estou falando?
- Vai arrumar o que fazer. Pensa que eu não sei o que é primeiro de abril? Me liga amanhã, então, para contar a novidade.
Minha avó desligou o telefone e até hoje, assim como todos na família, não se perdoa da peça que pregou em si mesma.
E as gracinhas continuam, ano a ano, algumas mais criativas, outras menos:
- Eu não gosto do seu aniversário.
- Por quê???
- Você é a única pessoa em quem eu não consigo pregar peça. Fica ligada o dia todo que é primeiro de abril.
- Seu aniversário é hoje? Tinha que ser,mesmo, né?
- Por quê?
- Não imagino outro dia para uma pessoa como você nascer. Aliás, você é uma mentira. Acho que você nem existe.
Agora até a minha filha, que ainda nem sabe direito o que é ser um ser humano:
- Mãe, é verdade que você nasceu dia da mentira?
- É (cara séria, quase grunhindo, para intimidar gracinha).
- Então, mãe, já que o seu aniversário é de mentira, hoje pode ser o MEU aniversário, né? Cadê meu presente? Eu é que vou soprar as velas do bolo… Você fica aí com o seu aniversário de mentira.
Hoje mesmo uma engraçadinha ligou dizendo: “Eu não te liguei para não te desejar feliz aniversário”. Desligou e ficou por isso mesmo.
E no Orkut, um engraçadinho deixou esse scrap: “Não te preocupa as pessoas te desejarem várias coisas boas no teu aniversário podendo ser tudo mentira sem que elas possam ser recriminadas já que a ocasião permite?”
Como dizia a minha avó, “Ah, tá!”.
Ele sempre fora dado a gracinhas, brincadeiras de mau gosto e coisas do gênero. Até que um dia, em uma reunião de família, um primo já meio aborrecido disparou:
- Esse cara não teve infância, não.
O irmão, com a autoridade de quem o conhecia por toda a vida, literalmente, di sparou:
- Infância ele teve, ele não teve foi brinquedo.
A mãe, indignada com a observação do primogênito vociferou, em um ataque de quase-fúria:
- Brinquedo ele teve, ele não sabia era brincar.
Ele, coitado, ficou meio cabisbaixo, bem quieto, mesmo. Até surgir a próxima idéia para atentar todo mundo de uma vez, afinal, perde-se até a família. A piada, nunca.
